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Água Viva

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“Hoje de tarde nos encontraremos. E não te falarei sequer nisso que escrevo e que contém o que sou e que te dou de presente sem que o leias. Nunca lerás o que escrevo. E quando eu tiver anotado o meu segredo de ser -jogarei fora como se fo…sse ao mar. Escrevo-te porque não chegas a aceitar o que sou. Quando destruir minhas anotações de instantes, voltarei para o meu nada de onde tirei um tudo? Tenho que pagar o preço. O preço de quem tem um passado que só se renova com paixão no estranho presente. Quando penso no que já vivi me parece que fui deixando meus corpos pelos caminhos.” (Clarice Lispector in “Água Viva”)

agua chuva tempestade, tsuname de mim

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agua – por pina bausch

olha nos meus olhos e assume tua presença

diz que nossos tempos se encontraram e que agora eh o momento

assume a liberdade de teu sentir

e torna continuidade teu querer

***

minha liberdade está no sentir!

me responsabilizar pelo que sinto…

sentindo o sentir e seu como

demonstrando e dizendo

***

nada me limita a intesidade do meu ser

amar eh delicado o bastante

e deseja

ser pleno

MEDO

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Mia Couto na conferência do Estoril2001

Comemorar o Medo

O medo foi um dos meus primeiros mestres.Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas aprendi atemer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos actuavam como uma espécie deagentes de segurança privada das almas.Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entresentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando meensinaram a recear os desconhecidos. Na realidade a maior parte daviolência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos,mas por parentes e conhecidos.Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam essevelho engano de que estamos mais seguros em ambiente quereconhecemos.Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditarque eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar paraalém da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meuterritório.O medo foi afinal o mestre que mais me fez desaprender.Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizontevislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura algo mesugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más doque coisas más propriamente ditas.No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa domedo tinha um invejável casting internacional. Os chineses quecomiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pelaindependência e um ateu barbudo com um nome alemão.Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas:morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantesà nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis eCarl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixoudescendência.O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico parao continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome dasegurança mundial foram colocados e conservados no poder algunsdos ditadores mais sanguinários de toda a história e, a mais gravedessa longa herança de intervenção externa, é a facilidade com queas elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus própriosfracassos.A guerra fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha nãodesarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo aoriente e a ocidente e, por que se trata de entidades demoníacas, nãobastam os seculares meios de governação, precisamos deintervenção com legitimidade divina.O que era ideologia passou a ser crença. O que era políticatornou-se religião. O que era religião passou a ser estratégia depoder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzirinimigos é imperioso sustentar fantasmas.A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato eum batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões emnosso nome. Eis o que nos dizem:Para superarmos as ameaças domésticas precisamos de maispolícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade.Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos,mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, porexemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e deoutro lado, aprendemos a chamar de “eles”.Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, ademografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: arealidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade,imprevisível.Vivemos como cidadãos e como espécie em permanentesituação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio asliberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode serinvadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitasperguntas, como por exemplo estas:
Por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria doarmamento?
Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um triliãoe meio de dólares em armamento militar?
Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbiasão exactamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi?
Por que motivo se realizam mais seminários sobresegurança do que sobre justiça?Se queremos resolver e não apenas discutir a segurançamundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Háuma arma de destruição maciça que está sendo usada todos os dias,
em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra, essaarma chama-se fome!Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passafome.O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muitopequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, amaior causa de insegurança do nosso tempo. Mencionarei ainda uma outra silenciada violência. Em todo omundo uma em cada três mulheres, foi ou será, vítima de violênciafísica ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobreuma grande parte do nosso planeta pesa uma condenaçãoantecipada pelo facto simples de serem mulheres.A nossa indignação porém é bem menor que o medo!Sem darmos conta fomos convertidos em soldados de umexército sem nome e, como militares sem farda, deixamos dequestionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. Asquestões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridadedos outros e, porque estamos em guerra, não temos que fazer provade coerência, nem de ética nem de legalidade.É sintomático que a única construção humana que pode servista do espaço seja uma muralha, a Grande Muralha, que foi erguidapara proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha nãoevitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morrerammais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasõesque realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores quemorreram foram emparedados na sua própria construção. Essescorpos convertidos em muro e pedra, são uma metáfora do quanto omedo nos pode aprisionar.Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres ericos mas não há hoje no mundo um muro que separe os que têmmedo dos que não têm medo.Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul edo norte, do ocidente e do oriente.Citarei Eduardo Galiano acerca disto, que é o medo global, edizer:Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que nãotrabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têmmedo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares;os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo dafalta de guerras e, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenhamedo que o medo acabe.

a morte que nos acompanha é a vida que nos acontece

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La Santa Muerte
por http://freddy3617.blogspot.com/2011/01/la-fe-en-la-santa-muerte.html

 

Faz algum tempo,

Conheci a morte negra

Então quis sair do meu corpo

Ela me transformou de tal maneira

Que me fortaleci em mim

Enquanto algo muito profundo morria

 

Recentemente encontrei a morte rosa

Então meu corpo doía

e quase enlouqueci

Ela me jogou de tal forma para a realidade

Que me resgatou algo que não me lembrava existir

 

Do que pode ser dito

A morte que nos acompanha

É a vida que nos acontece!

obscuridad com brillo excessivo

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obscuridad con brillo excessivo

por john milton, 1600

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eu olho para eles e eles olham para mim.
eles olham para mim e eu olho para eles.
nós nos olhamos.
nós nos vemos?
nós nos conhecemos?

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estetica do excesso como escudo.

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cosmovisão o caminho da natureza.

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seremos socialistas por necessidade.

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a morte que nos acompanha é a vida que nos acontece.