MEDO

MEDO

Mia Couto na conferência do Estoril2001

Comemorar o Medo

O medo foi um dos meus primeiros mestres.Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas aprendi atemer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos actuavam como uma espécie deagentes de segurança privada das almas.Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entresentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando meensinaram a recear os desconhecidos. Na realidade a maior parte daviolência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos,mas por parentes e conhecidos.Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam essevelho engano de que estamos mais seguros em ambiente quereconhecemos.Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditarque eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar paraalém da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meuterritório.O medo foi afinal o mestre que mais me fez desaprender.Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizontevislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura algo mesugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más doque coisas más propriamente ditas.No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa domedo tinha um invejável casting internacional. Os chineses quecomiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pelaindependência e um ateu barbudo com um nome alemão.Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas:morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantesà nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis eCarl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixoudescendência.O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico parao continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome dasegurança mundial foram colocados e conservados no poder algunsdos ditadores mais sanguinários de toda a história e, a mais gravedessa longa herança de intervenção externa, é a facilidade com queas elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus própriosfracassos.A guerra fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha nãodesarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo aoriente e a ocidente e, por que se trata de entidades demoníacas, nãobastam os seculares meios de governação, precisamos deintervenção com legitimidade divina.O que era ideologia passou a ser crença. O que era políticatornou-se religião. O que era religião passou a ser estratégia depoder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzirinimigos é imperioso sustentar fantasmas.A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato eum batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões emnosso nome. Eis o que nos dizem:Para superarmos as ameaças domésticas precisamos de maispolícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade.Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos,mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, porexemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e deoutro lado, aprendemos a chamar de “eles”.Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, ademografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: arealidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade,imprevisível.Vivemos como cidadãos e como espécie em permanentesituação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio asliberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode serinvadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitasperguntas, como por exemplo estas:
Por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria doarmamento?
Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um triliãoe meio de dólares em armamento militar?
Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbiasão exactamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi?
Por que motivo se realizam mais seminários sobresegurança do que sobre justiça?Se queremos resolver e não apenas discutir a segurançamundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Háuma arma de destruição maciça que está sendo usada todos os dias,
em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra, essaarma chama-se fome!Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passafome.O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muitopequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, amaior causa de insegurança do nosso tempo. Mencionarei ainda uma outra silenciada violência. Em todo omundo uma em cada três mulheres, foi ou será, vítima de violênciafísica ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobreuma grande parte do nosso planeta pesa uma condenaçãoantecipada pelo facto simples de serem mulheres.A nossa indignação porém é bem menor que o medo!Sem darmos conta fomos convertidos em soldados de umexército sem nome e, como militares sem farda, deixamos dequestionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. Asquestões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridadedos outros e, porque estamos em guerra, não temos que fazer provade coerência, nem de ética nem de legalidade.É sintomático que a única construção humana que pode servista do espaço seja uma muralha, a Grande Muralha, que foi erguidapara proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha nãoevitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morrerammais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasõesque realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores quemorreram foram emparedados na sua própria construção. Essescorpos convertidos em muro e pedra, são uma metáfora do quanto omedo nos pode aprisionar.Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres ericos mas não há hoje no mundo um muro que separe os que têmmedo dos que não têm medo.Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul edo norte, do ocidente e do oriente.Citarei Eduardo Galiano acerca disto, que é o medo global, edizer:Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que nãotrabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têmmedo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares;os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo dafalta de guerras e, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenhamedo que o medo acabe.

VENTO LIVRE

VENTO LIVRE

Por Silvia Badim

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Não se pode encapsular o amor.
O amor é vento livre, que assola as planícies com sopros desgovernados. Que venta montanhas e cordilheiras em uivos surdos. Que carrega as águas que deslizam fortes pela cachoeira. O amor é vento que nasce pequeno, e sopra sem cessar até que possamos tirar os pés do chão.
Não se pode encapsular o vento. A terra do amor é uma terra sem porto. O amor não se aporta, é navio sem âncora, conto sem ponto. Apenas se compartilha, se dissipa, se perde em si mesmo. Morre e renasce em diferentes formas. Uma, duas, dez, mil formas que enlaçam os corações desavisados.
O amor não cabe em nossas mãos, ele escorrega e alcança os ossos. Adentra a pele, perfura os vasos, e quando chega à medula já é outra coisa. É matéria prima do sangue, primo-irmão das células brancas e vermelhas. Mistura-se entranhado nas veias, e pulsa em diferentes tonalidades até ser expirado em ar quente pelos pulmões. O amor é a expiração que alcança o universo, em diferentes partículas. É o quente e o frio, o ar que volta para dentro para inflar a vida. O que é expelido para alcançar a morte.
Não se pode encapsular o ar. No momento em que tentamos colocá-lo dentro da garrafa, ele já é outra substância. O amor se transmuta fluído, se camufla entre desvarios, corre em passos largos para alcançar o horizonte que não tem endereço.
Não se pode reter o vento. Diante da ventania não há nada que se possa fazer, e então sentamos quietos, com os cabelos soltos e a pele em poros abertos. Com os olhos vidrados e as mãos em prece, para acolher o mistério: o amor pode percorrer o indizível.
E com sua fala sem voz, nos conta segredos que não se fixam na memória. Segredos que nos espantam, e transbordam para além do que podemos lembrar com raciocínio linear. O amor é tesouro que juntamos, peça por peça, em sentimentos acumulados desde as primeiras sensações de nascer em si mesmo. O amor é tesouro de sentir, e não há baú capaz de abrigar a riqueza conquistada. O amor não tem tampa, molde, forma, espaço apertado. O espaço do amor é o espaço do mundo.
Por vezes vem a agonia, e queremos prender o amor em alianças, papéis, regras, pílulas e tantos certos e errados. Ritos que celebram, símbolos que sacramentam, poderes de ditar ordens, remédios para aliviar a dor e evitar ameaças. Crenças de que o amor pode ser fincado no chão de terra, pode ser embalsamado pela casa construída, pode ser tijolo de pedra com cimento em cima. Crença de que o amor se possui, e se dirige.
Mas o amor é teimoso, e sua teimosia corrói as cordas. Vibra eletrizante pelas camadas duras. O amor não tem dogmas. É reino sem lei, com o rei deposto.
O amor pode ser vivido com ou sem presença, com uma, duas, três, quem sabe quantas pessoas. O amor é generoso. Pode ser flor solitária que desabrocha no deserto, ou pode caber justo no espaço da partilha de dois. Pode se esparramar para além do que podemos contar nas mãos, pode transbordar e alcançar os corpos nus ou, quem sabe, pode nunca ser tocado com os lábios.
O amor não tem gênero, não tem idade, não conhece etnias e credos. Não tem rótulos ou caixinhas com etiquetas. O amor não tem nome, sobrenome, família e descendência. E ri a todo tempo das regras inventadas, tão frágeis e comezinhas. Boas risadas que nos surpreendem quando, de repente, o peito sopra e o coração diz em silêncio latente: eu amo.
E a gente ama. Mesmo quando não quer, mesmo quando não pode. Mesmo quando tudo dá errado, quando existe medo, quando as barreiras se erguem tão grandes que não conseguimos ver o céu. A gente ama embaixo da aliança apertada, quando o papel falha, quando a regra diz não. Quando a gente se espanta pelo que não pode e, de repente, de ponta cabeça, sente as artérias grossas carregarem os mais delicados sentimentos.
A gente ama mesmo quando não tem voz para dizer, quando é inviável, quando a distância é tanta que parece sonho. A gente ama quando a vida aperta e corremos para longe do susto. A gente ama mesmo quando foge.
E o amor não tem vaidade exacerbada, não desfila em poses de fotografia. O amor não sai na foto. Esparrama-se pela cor azul e branca do céu, pelo preto e branco que se esvai em tons de cinza, pelo tempo que mancha a lembrança do papel. Pelo vestido que não serve mais, pelo arrepio que percorre a pele embaixo do casaco, pelo escuro dos olhos fechados.
O amor se espalha para ser inventado muitas vezes, para ser descoberto um pouco a cada dia, para adquirir novas e impossíveis formas.
O amor é irmão da liberdade, e qualquer sapato lhe aperta os pés.
Estejamos descalços, enfim.
***

Não reluto: entrego digo e calo. Aceito. Desejo ausência por que nela há vento, e o vento alimenta. O alimento do vento é perfume.

pelas queridas amigas Silvia Badim e Kiara Terra.

quando a alma abriga o espírito

quando a alma abriga o espírito

Eu contemplo o mundo onde o sol reluz

Onde as estrelas brilham

Onde as pedras dormem

Onde as plantas vivem e vivendo crescem

Onde os bichos sentem e sentindo vivem

Onde já o homem, tendo em si a alma, abrigou o espírito.

Eu contemplo a alma que reside em mim

O divino espírito age dentro dela assim como atua sobre a luz do sol

Ele paira fora, na amplidão do espaço e nas profundezas da alma também.

A ti eu suplico, oh divino espírito, que bênçãos e forças

para eu aprender, para eu trabalhar

Cresçam dentro de mim.

 

Rudolf Steiner

VIRTUDES

VIRTUDES

PRUDENCIA

JUSTIÇA

FORTALEZA

TEMPERANÇA

 

filosofia grega e cristianismo

***

 

CORAGEM que se torna Redenção

DESCRIÇÃO que se converte em Força Meditativa

MAGNIMIDADE que se transforma em Amor

DEVOÇÃO que se torna força de Sacrifício

EQUANIMIDADE que se transforma em Progresso

PERSISTENCIA que se transforma em Fidelidade

ALTRUISMO que leva à Purificação

COMPAIXÃO que leva à Liberdade

CORTESIA que se torna Sensibilidade

SATISFAÇÃO interior que se torna Serenidade

PACIÊNCIA que se torna Cognição

CONTROLE DA FALA, DO PENSAMENTO: Percepção de Verdade

INTEGRAÇÃO que se transforma em Plenitude

meditação para as 12 noites santas, pela antroposofia.

elevados poderes do ar

elevados poderes do ar

já percebeu como… o desejo faz com que nossos olhos cruzem o espaco? Como a decisao de agir vence a atmosfera com a rapidez da luz?… apesar da ameaca do fogo e do nosso medo das chamas, saimos pelo teto de nossas casas. o desejo e uma forca interior. nossas bocas se abrem, cedendo passagem as torrenciais golfadas de ar, e , nossos corpos flutuam como estrelas. rimos em extase por reconhecer que o ar nutre desejos… sin, invocamos transbordantes de nossa propria essencia e prazer. sim, cantamos e voamos noite adentro.

Susan Griffin, escrevendo sobre a maneira com a qual a forca do desejo nos liberta.

compromisso

compromisso

‎”Até que você esteja comprometido, há hesitação e possibilidade de voltar atrás, sempre há ineficácia com respeito a todas as iniciativas (e criação). No momento em que há um compromisso decisivo a Providência também se movimenta. Um turbilhão de acontecimentos é desencadeado pela decisão. Seja o que for que você possa fazer ou sonhar que pode, comece. A ousadia contém em si genialidade, poder e magia. Comece agora.”

O Milionésimo Círculo – (Atribuído a Goethe).

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.

por Fernando Pessoa

***

“Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim como em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.”

 por Fernando Pessoa